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Archive for the ‘Reflexões’ Category

Democracia

Novembro 8, 2006 Deixe o seu comentário

Arcamax

Quase na época natalícia.

Tempo de paz, tempo de reflexão, tempo de retirada interior que não se compadece com o tumúlto dos ataques suicidas.

Cheiros florais amadeirados no Ocidente. Uma vertigem de dissonâncias de que não temos consciência.

A contradição de um grande mal estar que há-de desaparecer. Nunca mais ouvirmos falar dele. Do mal-estar.

E, também, do tio que era político.

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Criatividade

Outubro 29, 2006 Deixe o seu comentário

A criatividade neste país não tem tradição. O que existe é aquele termo impronunciável que os familiares emigrados utilizam quando voltam de férias em pleno Agosto ao país natal. E soa mesmo melhor com o sotaque da língua francesa. É o toque kitsch. Não temos Halloween, mas temos chuva e a tradição do queixume. Ora o queixume sendo avesso à mudança e sendo a mudança o alicerce da criatividade… ficamos com a chuva. O Einstein dizia que a mente intuitiva é uma recompensa sagrada e a mente racional um fiel escravo e que nesta sociedade reservamos a honra para o escravo e esquecemos a recompensa. Mas quem necessita de recompensas quando temos o sagrado assistencialismo todas as semanas neste país?

Categories: Reflexões

Preencher os Sentidos

…Se todas as teorias são legítimas e o que verdadeiramente importa é o que fazemos com elas, (Jorge Luís Borges) é, através da prática, que se pode aprender o verdadeiro significado do viver.Ler é uma prática de vida.

“A book is not an isolated being: it is a relationship, an axis of innumerable relationships”

“Jorge Luis Borges – A Biblioteca de Babel

O universo (que outros chamam a Biblioteca) compõe-se de um número indefinido, e talvez infinito, de galerias hexagonais, com vastos poços de ventilação no centro, cercados por balaustradas baixíssimas. De qualquer hexágono, vêem-se os andares inferiores e superiores: interminavelmente.

 

A distribuição das galerias é invariável. Vinte prateleiras, em cinco longas estantes de cada lado, cobrem todos os lados menos dois; sua altura, que é a dos andares, excede apenas a de um bibliotecário normal. Uma das faces livres dá para um estreito vestíbulo, que desemboca em outra galeria, idêntica à primeira e a todas. À esquerda e à direita do vestíbulo, há dois sanitários minúsculos. Um permite dormir em pé; outro, satisfazer as necessidades físicas. Por aí passa a escada espiral, que se abisma e se eleva ao infinito. No vestíbulo há um espelho, que fielmente duplica as aparências.

 

Os homens costumam inferir desse espelho que a Biblioteca não é infinita (se o fosse realmente, para que essa duplicação ilusória?), prefiro sonhar que as superfícies polidas representam e prometem o infinito… A luz procede de algumas frutas esféricas que levam o nome de lâmpadas. Há duas em cada hexágono: transversais. A luz que emitem é insuficiente, incessante.”)

 

 

“Eram a pandilha de Genebra, descrentes da sociedade que tinha gerado a I Guerra Mundial e convictos de que à sua geração, nascida no dealbar do século XX, cabia a responsabilidade de abolir a ordem capitalista em prol do socialismo.

 

Maurice Abramowicz, Simon Jichlinsli e Jorge Luis Borges diziam-se «maximalistas», acreditavam na revolução que parecia iminente na Rússia de 1917 e admiravam Lenine como ao último dos homens. Iam nadar e recitar poesia nas margens do Ródano e, à noite, visitavam tabernas de duvidosa estirpe, «discutiam sobre tudo e sobre nada», jogavam às cartas e partilhavam as últimas novidades amorosas. Esse mesmo Borges, que amava Walt Whitman e o seu poema único, «Folhas de Erva», que se submergia nas leituras dos russos e dos expressionistas alemães, é o mesmo que mais tarde integrou em Sevilha a vanguarda ultraísta, impulsionada pelo escritor Rafael Cansinos-Asséns, que exortava os jovens poetas a serem «ultra-românticos».

 

No seu «Himno del Mar», esse Borges de 18 anos descreve-se «atlético e nu», saboreando um «instante de plenitude magnífica» num mar que «beija os seios dourados das virgens praias». Mais tarde, em Maiorca, explicaria que o movimento ao qual tinha aderido tentava «criar novos mitos, fazer com que cada artista constituísse um universo à sua imagem». Ao longo da vida, porém, Borges iria abandonar por completo a veia esquerdista, chegando mesmo a repudiá-la, e nunca mais iria abusar da adjectivação e da metáfora como naqueles tempos. Só uma verdade prevaleceu do manifesto de intenções ultraístas: ele não só se tornou um mito como erigiu um universo à sua imagem.”

Texto de Luciana Leiderfarb (Jornal Expresso, 09-06-06)

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